Entrevista com Lúcia Hussak van Velthem

  • Carla Damião
Palavras-chave: Estética do viver; Agentividade; Mito-gráfico; Museologia colaborativa; Tuwaré

Resumo

Nesta entrevista, a antropóloga Lúcia Hussak van Velthem discute sua trajetória e as complexas artes e cosmologias indígenas, focando especialmente nos povos Wayana e Aparai. Ela propõe o conceito de "estética do viver", em que a beleza de um objeto é intrínseca à sua funcionalidade e eficácia prática, desafiando a visão ocidental de arte puramente contemplativa. Os artefatos são descritos como "quase-corpos" com capacidades agentivas; para o uso seguro no cotidiano, esses objetos apresentam corpos fragmentados — como o tipiti serpentiforme — para que sua agência seja controlada pelos humanos. Velthem detalha o sistema "mito-gráfico", onde o repertório visual originado da pele da cobra-grande Tulupele captura potências ancestrais por meio de um "minimalismo figurativo", identificando seres através de traços essenciais e definidores. O conhecimento técnico, chamado tuwaré, fundamenta-se na visão e na proteção dos wayanaman, entidades que habitam as pupilas e guiam a manufatura dos artesãos. Na prática museológica, a pesquisadora defende uma curadoria colaborativa que respeite o protagonismo das populações tradicionais e a pluralidade dos patrimônios. Ela enfatiza a luta diária contra o esquecimento e a necessidade de observar sensibilidades cosmológicas, como o entendimento de que objetos em reservas técnicas estão "dormindo" e requerem cuidados específicos, incluindo o ocultamento de itens sensíveis ou a disposição física correta conforme normas rituais. Por fim, discute a ascensão de artistas indígenas em centros urbanos como uma forma de ativismo político e crítica cultural, buscando reconhecimento além do rótulo de "artesanato".

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Referências

VAN VELTHEM, Lúcia Hussak. Representações gráficas Wayana-Aparaí. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova Série: Antropologia, Belém, n. 64, p. 1-19, jul. 1976.
VAN VELTHEM, Lúcia Hussak. O belo é a fera: a estética da produção e da predação entre os Wayana. Lisboa: Assírio & Alvim; Museu Nacional de Etnologia, 2003.
VAN VELTHEM, Lúcia Hussak. "Mulheres de cera, argila e arumã: princípios criativos e fabricação material entre os Wayana". MANA, 15(1): 213-236, 2009.
VIDAL, Lux (ORG.). Grafismo Indígena: estudos de antropologia estética. São Paulo, Studio Nobel/EDUSP, 1992.
Publicado
2026-08-12
Seção
Estéticas da Arqueologia: diálogos mediados por imagens rupestres