A construção social da Voz na performatividade do gênero

uma análise prosódica no falar transgênero feminino

  • Leandro Augusto dos Santos UFOP
  • Leandra Batista Antunes UFOP
Palavras-chave: transgênero; construção social da voz; prosódia; performatividade; ADC.

Resumo

O presente trabalho teve como objetivo verificar o papel da prosódia na construção social da voz de mulheres transgênero. Para tanto, escolhemos trabalhar com trechos de vídeos de 6 youtubers famosos: 2 homens cis (Christian Figueiredo e PC Siqueira), 2 mulheres cis (Kéfera Buchmann e Niina Secrets) e 2 mulheres trans (Mandy Candy e Thiessa). Delimitamos uma tag específica de vídeos para que pudéssemos ter mais comparabilidade de gênero textual (BAKHTIN, 1952-1953), e também para que os aspectos prosódicos tivessem maior semelhança (BARBOSA, 2012). Com as análises acústicas, pudemos perceber que a voz das mulheres trans aqui analisadas possuem características mais femininas do que masculinas, o que comprova nossa hipótese de que pessoas que passaram pelo processo de transição hormonal teriam que moldar sua frequência fundamental para uma construção social de suas vozes (BARROS FILHO, 2005). Pudemos perceber que as mulheres dos dois grupos apresentaram valores de f0 mais elevados que os homens, além de tessitura de até 40 Hz a mais que eles. Isso demonstra que há uma variação melódica maior no falar das mulheres, sejam cis ou trans. O teste de percepção – realizado de maneira remota com 79 pessoas – mostrou que as mulheres trans possuem passabilidade no que se refere a suas vozes, tendo tido poucas respostas que mostram “confusão” do participante. Também notamos que Christian possui valores de f0 mais altos que PC Siqueira, o que nos faz perceber que as categorias de traços masculinos ou femininos não é linear e é tão binária quanto qualquer teoria social, ainda que haja diferenças fisiológicas nos tratos vocálicos de cada sexo/gênero.

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Publicado
2020-12-27
Seção
Artigos - Fluxo contínuo