Paisagens narradas
Resumo
Este artigo propõe uma análise da paisagem mineira como um arquivo vivo e dinâmico, investigando como a arte rupestre atua como dispositivo de memória e construção de narrativas em três contextos distintos. Inicialmente, aborda-se o caso de São Thomé das Letras, onde a apropriação colonial e religiosa ressignificou grafismos indígenas, transformando-os em relíquias sagradas cristãs para legitimar a posse do território. Em seguida, examina-se a perspectiva do povo Krenak no Vale do Rio Doce, demonstrando como os sítios arqueológicos são reatualizados não como ruínas, mas como moradas de “encantados” e ferramentas de resistência política e identidade étnica. Por fim, o estudo recua à antiguidade da Tradição Planalto na região de Diamantina, com foco na Lapa das Piabas. Através da relação entre os grafismos e o meio ambiente (o Rio Preto), investiga-se a “escrita original” de caçadores-coletores-pescadores como uma crônica da intimidade com os ciclos da natureza. Conclui-se que tais narrativas – a mítica, a política e a ecológica – sobrepõem-se, conferindo à geografia física a espessura simbólica da paisagem.
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