Dramaturgia da pele escrita
inscrituras negro-gaúchas e fabulações insurgentes em Preta Poesia Feminina (2021), de Silvia Duarte
Resumo
Em um país que silenciou vozes negras e queimou seus registros, o palco tornou-se arquivo vivo e a pele, superfície de memória. Quando uma mulher negra encena outras em sua voz, não apenas evoca a escrita alheia, mas reinscreve histórias coletivas em um gesto estético que é também político. Este artigo propõe uma análise da performance Preta poesia feminina (2021), idealizada e encenada por Silvia Duarte, à luz do conceito de “inscritura”, compreendido como gesto performático de escrita que se inscreve na pele, na voz e na presença de mulheres negras. A investigação busca compreender de que modo a obra, transmitida em ambiente digital nas suas primeiras apresentações, articula corpo, memória e ancestralidade como práticas estéticas e políticas de enunciação. Utiliza-se uma metodologia analítico-interpretativa, fundamentada nos estudos de Quadros (2020; 2023), Evaristo (2020) e Martins (2003; 2021), para evidenciar como a dramaturgia negrofeminina se manifesta na seleção poética, na vocalidade da performer e na relação com o público. A análise demonstra que a cena constrói uma escritura coletiva e insurgente, em que o corpo negro feminino se inscreve como superfície simbólica de resistência e reexistência. Conclui-se que Preta poesia feminina atualiza uma dramaturgia enraizada na experiência e na ancestralidade, projetando no espaço cênico-digital uma fabulação de si e do coletivo, sustentada pela força política e sensível da oralitura.
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Referências
EVARISTO, Conceição. Gênero e etnia: uma escre(vivência) de dupla face. In: SCHNEIDER, Liane; MOREIRA, Nadilza Martins de Barros (org). Mulheres no mundo: etnia, marginalidade e diáspora. 2ª ed. João Pessoa: CCTA, 2020. p. 219-229.
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QUADROS, Dênis Moura de. Ferramentas afrocentradas para pensar uma literatura de autoria de mulheres negras gaúchas. São Paulo: Na raiz, 2023.
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