O que pode um corpo dissidente na capoeira?
Resumo
Este artigo investiga como a performatividade de gênero e sexualidade é vivida por pessoas LGBTQIA+ na prática da capoeira, analisando os atravessamentos entre sexualidade, raça, classe e precariedade. A pesquisa, em sua terceira etapa, utilizou entrevistas estruturadas com quatro capoeiristas LGBTQIA+ que exercem docência em seus grupos, situados em diferentes estados brasileiros. A análise dos relatos evidencia que esses corpos experienciam formas específicas de exclusão e silenciamento, sendo pressionados a ocultar suas identidades como estratégia de sobrevivência. Revela-se, ainda, que a capoeira, mesmo ancorada em uma matriz ancestral de resistência, reproduz normas hegemônicas que dificultam o reconhecimento e a ascensão de pessoas dissidentes. Conclui-se que o fortalecimento da performatividade dissidente na capoeira depende da criação de espaços mais plurais e do enfrentamento das hierarquias simbólicas e materiais que sustentam exclusões históricas. A prática da capoeira, ao dialogar com as urgências do presente, pode reafirmar seu potencial libertário, desde que abra espaço para a diversidade de corpos e saberes.
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