O que pode um corpo dissidente na capoeira?

Palavras-chave: capoeira, performatividade, corpos dissidentes, precariedade, LGBTQIA

Resumo

Este artigo investiga como a performatividade de gênero e sexualidade é vivida por pessoas LGBTQIA+ na prática da capoeira, analisando os atravessamentos entre sexualidade, raça, classe e precariedade. A pesquisa, em sua terceira etapa, utilizou entrevistas estruturadas com quatro capoeiristas LGBTQIA+ que exercem docência em seus grupos, situados em diferentes estados brasileiros. A análise dos relatos evidencia que esses corpos experienciam formas específicas de exclusão e silenciamento, sendo pressionados a ocultar suas identidades como estratégia de sobrevivência. Revela-se, ainda, que a capoeira, mesmo ancorada em uma matriz ancestral de resistência, reproduz normas hegemônicas que dificultam o reconhecimento e a ascensão de pessoas dissidentes. Conclui-se que o fortalecimento da performatividade dissidente na capoeira depende da criação de espaços mais plurais e do enfrentamento das hierarquias simbólicas e materiais que sustentam exclusões históricas. A prática da capoeira, ao dialogar com as urgências do presente, pode reafirmar seu potencial libertário, desde que abra espaço para a diversidade de corpos e saberes.

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Biografia do Autor

Mateus Schimith, UFBA

Professor Adjunto, Universidade Federal da Bahia, Fundamentos do Teatro, Salvador, Bahia, Brasil

Alexsandro Rodrigues, UFES

Professor Associado IV, Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Educação, Vitória, Espírito Santo, Brasil

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Publicado
2026-02-05
Como Citar
SCHIMITH, M.; RODRIGUES, A. O que pode um corpo dissidente na capoeira?. Ephemera: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, v. 9, n. 18, 5 fev. 2026.