v. 20 n. 40 (2026): Estéticas da Arqueologia: diálogos mediados por imagens rupestres

ARTEFILOSOFIA apresenta o número 40, trazendo o dossiê “Estéticas da arqueologia: diálogos mediados por imagens rupestres”, proposto e organizado por Carla Milani Damião, editora responsável pela publicação dos artigos aqui presentes. A editoria contou com Celina Lage, Lilian Panachuk e Rogério Tobias Junior. Agradecemos a todo mundo pelo trabalho, incluindo a equipe da revista, nesse número representada por Pablo Furtado, Diego Aurelio e Pedro Souza.

Sobre o tema proposto, desejamos ressaltar a nuvem de mistério em volta dos registros arqueológicos quando considerados a partir da perspectiva da dimensão estética. Celebração? Registro histórico? Função didática? Arte pela arte? Fetiche? Uma das coisas mais marcantes sobre essa já considerada uma forma de arte é o quão pouco se sabe sobre sua razão de ser.

Se, por um lado, a explicação mais consistente parece dizer respeito a rituais e magia, há diversas outras hipóteses: essas formas artísticas nascem da angústia cósmica, da necessidade de registrar acontecimentos ou de adorno, de ornamentação, talvez da necessidade humana de brincar, do jogo, do “mero” prazer da arte pela arte... todas essas tentativas de explicar o fenômeno, e outras ainda, contêm algum elemento de verdade. A origem da arte não pode ser limitada a um único impulso. E a natureza do impulso dominante no processo criativo irá mudar de acordo com os conceitos e a estrutura simbólica em curso. Portanto, pensar um único fator como explicação dessa arte primeva é uma hipótese tão ingênua quanto implausível.

          Parece ser fato estabelecido que o artista foi primeiro escultor (pedra, marfim, madeira, argila, mistura de terra, ossos, gordura animal e relevos), e em seguida pintor: a partir de 50 mil anos A.P. pode-se falar em pintura mural. E, depois da visita às cavernas de Lascaux (realizada em 1955) onde, “na penumbra da gruta”, o ser humano excede o até então existente “criando aquilo que não era o instante anterior”, o filósofo francês George Bataille escreveu, com bastante entusiasmo, O nascimento da arte. Nessa obra, sem descartar as interpretações correntes, a origem das pinturas parietais aparece ligada a uma característica inalienável – e, portanto, permanente e universal – do ser humano: o impulso de autossuperação, a vontade de ser mais. Nas palavras do autor, “a arte teve constantemente por objetivo a criação de uma realidade sensível que modifica o mundo no sentido de uma resposta ao desejo de prodígio implícito na essência do ser humano.” (grifo nosso)

Publicado: 2026-08-27