A ética do cômico em King Kong Fran
palhaçaria, gênero e resistência
Resumo
A pesquisa consiste no estudo do texto dramatúrgico King Kong Fran, de Rafaela Azevedo e Pedro Brício. O texto, originado do espetáculo em cartaz no circuito teatral do Rio de Janeiro e São Paulo desde o final de 2022, articula elementos do circo e da palhaçaria para posicionar-se frente a práticas sociais e artísticas misóginas. Considerando os recursos acionados na construção da obra, meu objetivo consiste em identificar quais são as estratégias de comicidade e humor empregadas e refletir sobre o modo como tais escolhas estéticas se articulam com um discurso político no que concerne ao enfrentamento das estruturas e práticas misóginas que incidem sobre as mulheres. Para tanto, me amparo no embasamento teórico fornecido pelos estudos sobre comicidade (Bakhtin, 1999; Bergson, 1980; Arêas, 1990, entre outras), bem como nas pesquisas que vinculam a discussão sobre comicidade e humor com a crítica feminista (Acevedo, 2018; Avilano, 2021; Espinosa-Vera, 2010, entre outras). Observo que, por meio da estratégia do espelhamento e da troca de papéis de gênero, a partir de recursos como a ironia, a paródia e o exagero, o texto se posiciona politicamente como denúncia das práticas sexistas que marcaram historicamente as produções artísticas, especialmente no âmbito do circo e da palhaçaria, e a vida social das mulheres. Considero que o corpus artístico em estudo assume caráter anfíbio (Santiago, 2004) ao articular estética e política de forma ambivalente, de modo que converge com o que chamo de uma ética do cômico dado que propõe transformação social por meio do riso.
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Referências
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