Arvorar

por um enraizamento afropindorâmico do corpo-território

Palavras-chave: reclaim, arvorar, tradução performativa, cosmopolítica, afropindorâmica

Resumo

Este artigo propõe o verbo arvorar como tradução conceitual do termo reclaim, tal como mobilizado por Isabelle Stengers, argumentando que esta escolha abre caminhos para uma tradução cosmopolítica enraizada em perspectivas ameríndias e afrodiaspóricas. A partir de um diálogo com Bruno Latour, Donna Haraway, Luiza de Aguiar Borges e Guilherme Gontijo Flores, discute-se a tradução como prática insurgente, marcada por equívoco produtivo, indeterminação e contato. A proposta de arvorar convoca a imaginação vegetal, a performatividade ritual e a visibilidade insurgente como operadores críticos que reconfiguram a noção moderna de resistência. Trata-se de uma tradução-feitiço, uma palavra-onça, uma prática de mundo que resiste à neutralidade e ao apagamento, enraizando-se na potência de mundos plurais que se cruzam e se transformam mutuamente. No que tange às artes da cena, este texto é o gesto-semente de um programa performativo em devir, brotamento (rizomático) e (des)(re)territorialização.

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Biografia do Autor

Way Pury, UFRJ

Doutorando em Antropologia Social, PPGAS, Museu Nacional/UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Referências

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Publicado
2026-02-05
Como Citar
PURY, W. Arvorar: por um enraizamento afropindorâmico do corpo-território. Ephemera: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto, v. 9, n. 18, 5 fev. 2026.