Ensaio epistolar para Macala
memória, teoria, afetividade e o direto à autonomeação
Resumo
O presente ensaio epistolar dirige-se à figura ancestral de Macala, mulher negra fotografada por Marc Ferrez no século XIX e rebatizada pela escritora Luciany Aparecida. A partir do gesto de escrever-lhe uma carta, as autoras constroem um diálogo com teóricas feministas negras como Saidiya Hartman, Audre Lorde, bell hooks, Patricia Hill Collins e Conceição Evaristo. O texto parte da imagem de Macala para refletir sobre as continuidades coloniais que atravessam os corpos negros em diáspora, abordando temas como apagamento, resistência, epistemologias contra-hegemônicas, a memória dos mares e a insubmissão diante da necropolítica. Assumindo o formato da carta como dispositivo literário e teórico, o ensaio costura memória, teoria e afetividade, em uma escrita que honra os legados de mulheres negras e reivindica o direito à (auto)nomeação. O punho cerrado de Macala, símbolo de resistência, transforma-se em metáfora central da narrativa, invocando a urgência da manutenção do fogo ancestral, da voz e da dignidade negada. Ao elaborar uma narrativa em espiral – herdeira das tradições orais e da performance do tempo curvilíneo –, a carta propõe uma reinterpretação crítica dos arquivos coloniais, uma denúncia da violência epistêmica e uma afirmação radical da vida negra.
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Referências
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